Arquivo da categoria ‘filosofia’

Faz algum tempo que não posto por aqui. Muitas coisas aconteceram, não muitas comigo, mas no mundo, e sobre essas coisas que quero falar. (mais…)

James Holmes tem a minha idade, é estudante universitário e tambem deve ser um grande fã de quadrinhos. As razões que o levaram a fazer o que fez nos primeiros minutos da ultima sexta, dia 20 de julho de 2012 talvez jamais saibamos. O fato é que não existe um único agente motivador que o tenha inspirado a cometer tal barbarie: em tais casos é sempre tentador culpar a mídia (e somente ela) envolta na cena do crime do que a realidade (ou não) na qual vive o mais novo assassino da vez.

O triste episódio ocorrido na cidade de Denver dá continuidade a um padrão de atentados que acontecem com cada vez maior frequência em todos os cantos do mundo: jovens frustrados ou vingativos descontando sua fúria na sociedade.  Simplesmente condena-los como ações de monstruosa psicopatia só colabora para que não nos sintamos culpados em relação a nosso próprio instinto de violência, mascarando nosso potencial de repetir um ato homicida.

A fim de saciar nossa natureza agressiva, a indústria do entretenimento nos ajuda através dos games, cinema e esportes a dar vazão a nossos impulsos mais destrutivos e primais através da simulação. O que acontece é que a simulação é tão presente em nosso cotidiano, que já não diferenciamos a realidade com a hiper-realidade – ou  Mundo-Cópia, como sugere Baudrillard em Simulacro e Simulação.

A super-exposição da violência real ou simulada, nos desensibiliza a tal ponto que os presentes naquela sessão em Denver demoraram a reagir aos tiros pensando se tratar de alguma ação viral – prática atualmente muito comum no ramo do entretenimento cinematográfico. A mesma super-exposição certamente colaborou para que James tratasse seu crime como uma encenação – que o fez com toda teatralidade possivel com suas armas, máscara e declarações fantasiosas.

Naturalmente nenhum argumento filosófico ou sociológico isenta um homem de um crime dessa magnetude. Provavelmente ele o pagará com a própria vida, que é como costuma proceder a lei americana em casos tão extremados como esse. O perigo está em tratá-lo como um incidente isolado sem relação com o modo como vivemos e lidamos com nossa propria violência…

E citando o Coringa em A Piada Mortal, de Alan Moore:

Só é preciso um dia ruim pra reduzir o mais são dos homens a um lunático. É essa a distância que me separa do mundo. Apenas um dia ruim.

Dia desses tava de bobeira numa livraria da vida quando vi um livro cujo título me chamou atenção: Religião Para Ateus, de um tal Alain de Botton – um filosófo famoso por seu discurso quase terapêutico para consolar corações aflitos da chamada sociedade secular. Uma rápida folheada no livro mostrou não se tratar de um tipo de “auto-ajuda” na seção errada da loja, mas sim um discurso filosófico que reconhece os acertos das religiões para acalentar a alma humana e tenta transporta-los para o pensamento ateísta.

Levei o livro e o devorei em questão de horas, mas não me basta ler, quero comentar aqui alguns aspectos que fizeram  repensar alguns conceitos que carregava comigo:

O primeiro e mais importante deles é a não-isenção do ateu com os problemas existênciais inerentes a condição humana. A não-crença num suposto after-life não implica invulnerabilidade emocional em relação às grandes questões por parte do ateu, pelo contrário: não crer em respostas inquestionaveis para as aflições e os mistérios da vida faz com que busquemos consolo e momentos de “iluminação” na literatura, nas artes e no outro. Ela não vem pronta e embalada para consumo, nossas respostas (se é que elas existem) levam toda uma vida para serem encontradas e entendidas, ou nem isso. É preciso dedicar um bom tempo da nossa existência num esforço consciente de tentar significa-la para se colher algum fruto ao fim da mesma. O mesmo tempo gasto por um fiel em cultos e leitura das suas sagradas escrituras deveria tambem o ateu despreender com o mesmo fervor ao estudo e ao debate dos grandes pensadores da nossa história, a fim de se estabelecer uma base sólida de conceitos e conselhos tão uteis como qualquer evangelho.

A tolerância com a fé alheia é outro ponto que me agradou muito na leitura deste livro. Diferente do menosprezo de um Richard Dawkins – por exemplo, Alain de Botton demonstra um reconhecimento do bem que as religiões fazem a condição humana. Identificados tais pontos, o filosofo tenta traze-los a realidade ateísta. Sua comparação inicial que achei muito válida é a de comparar a religião com um buffet no qual você não precisa comer tudo que está sendo servido: escolha aquilo que melhor lhe agradar e bon appetit.

Concluindo:  gostei muito de Religião para Ateus e irei atrás de outros títulos de Alain de Botton. O próximo talvez seja Ensaios De Amor, porque né?!