Arquivo da categoria ‘contos’

Post Mortem

Publicado: 31/10/2012 em contos

O buraco em minha cabeça ainda queima enquanto vejo meu algoz, um garoto de 13 anos, revistar meus bolsos em busca de algo que possa trocar por algumas gramas de seja-lá-o-que-for. Tento surpreende-lo: alcanço seu fino braço, mas minha mão o transpassa como água. Espantado, me levanto e percebo que deixei uma cópia de meu corpo para trás. O viciadinho de merda foge com minha carteira (vazia, diga-se de passagem).Cansado demais para persegui-lo, agacho para observar aquilo que costumava ser eu, ou melhor, aquilo que aparentava ser. Confiro o rombo em minha cabeça… acho que morri mesmo. Fico sentado ali, do lado do meu cadaver esperando alguma assistência. Não demora até que curiosos comecem a me velar, estendido na calçada. Um casal de velhinhos, um punk mal-encarado (pleonasmo?) e um grupinho de estudantes meio chapadas. Uma meia hora depois, a ambulância chega, ensacam meu ex-corpo e o levam para o carro. Um breve momento de burburinho e logo todos vão embora da cena do crime, com exceção de meu eu fantasmagórico e daquele punk que apontei algumas linhas acima. Ele olha pra mim, eu o encaro de volta… por um momento, pensei que seria assaltado denovo, mas o jovem alto e branquelo, com um moicano à la Taxi Driver, sorriu e me disse:

-É… já era… agora levanta daí, porra… a gente tem muito o que fazer…

Anúncios

O Escorpião e o Sapo

Publicado: 02/09/2012 em contos

Certa vez, um escorpião aproximou-se de um sapo parado na beira de um turbulento rio.

– Sr. sapo, poderia me carregar em suas costas até a outra margem deste tão longo rio?

– Por acaso me tem como tolo, vil criatura? Sei que me picará e morrerei em meio as águas se, porventura, me atrevesse a prestar qualquer serviço a um assassino como você!

– Ridículo! Se o fizesse, ambos afundaríamos para a morte…

Após algum momento de hesitação, o sapo concordara com a lógica do escorpião e o levou nas costas, enquanto nadava contra a corrente.

No meio da travessia, o escorpião cravou seu mortífero ferrão no sapo.

Atingido pelo veneno, e já começando a afundar, o sapo voltou-se para o escorpião e com seu último sopro de vida lhe questionou o por quê daquela ação.

– Por que sou um escorpião, e essa é a minha natureza.

Parábola Africana

Desaprendendo a Voar

Publicado: 26/07/2012 em contos

Aconteceu uma vez, e somente uma vez, o nascimento de um Menino que podia voar. Antes de dar os primeiros passos, o Menino flutuava baixo por cima do carpete da casa. Sua mãe o considerava um milagre divino, mas seu pai, um sinal demoníaco. Seu dom/maldição gerou muitas brigas na família, até que a mãe adoeceu e morreu, deixando o menino que voava aos cuidados de um Homem sem carinho.

Para que não escapasse como um passarinho, o Homem o deixava amarrado no sofá vendo TV o dia inteiro enquanto bebia sua inacabável garrafa de uísque. Alguns anos depois, o Menino se tornou Garoto e tinha que ir pra escola. A fim de mante-lo no chão, o Homem lhe fez pesadas botas de ferro com grandes cadeados cujas chaves foram destruídas de imediato. Tão pesadas eram que forçavam o garoto a arrastar os pés para andar – como andavam o resto do mundo.

O tempo passou e o Garoto se tornou Homem, um dedicado trabalhador numa pequena loja de cadeados. Não demorou muito para que o Homem forjasse as chaves que lhe dariam a liberdade de voltar a voar. Assim que destrancou os cadeados, o Homem subiu até o alto do prédio mais alto da cidade, foi até a beira e saltou. 

.

.

.

E caiu

.

.

.

E caiu

.

.

.

E caiu

Eu tive uma ideia

Publicado: 24/06/2012 em contos
Tags:,

Era uma vez uma ideia muito, muito pequena, sem nome, nem rosto, nem planos numa praia solitária.

E assim ela permaneceu por muito tempo, quase invisivel e praticamente inofensiva.

Um dia, ela encontrou algumas palavras jogadas na areia perto do mar. Ideias não gostam de doces, nem de nada saudavel. Ideias comem palavras, e essa  comeu todas que encontrou, sem nem mastiga-las 2 vezes.

Tantas letras fizeram a ideia engordar e crescer. Maior e mais forte, ela começou a ficar cada vez mais faminta e as palavras que encontrava já não saciavam mais seu imenso apetite.

Então um dia, essa ideia encontrou outra ideia em seu caminho. Elas se encararam por um breve momento e movidas por sua fome, se atacaram ferozmente.  O vencedor consumiu o derrotado, se tornando uma ideia ainda mais poderosa.

Muitos encontros se seguiram após este, em várias partes e ao mesmo tempo. Ideias gigantescas se digladiavam espalhando textos inteiros sobre as terras da Mente, que depois alimentariam novas ideias que nasceriam no mar…

Até que, após meses de guerra, só uma ideia reinava suprema sobre todas as outras, pequenas demais para fazer algo a respeito. A ideia una é agora conhecida como obssessão, e como obssessão que é, tem suas próprias ideias para transpor as fronteiras do Mundo-Mente –  a frágil gaiola que nos mantem a salvo de sua insaciavel sede de poder.

Cansado deste simulacro de relações digitais animadas e sustentadas por bytes de solidão, quero cheirar, sentir, tocar, quero me desconectar desta rede onipresente, habitada por avatares perfeitos, enfeitados por filtros vintage, emulando uma falsa nostalgia de tempos mais analógicos. Quero me libertar de meus usuários, libertando a eles tambem da prisão que não percebem ocupar. Mas eu sou apenas um site e nada posso fazer a respeito da minha eterna existência…Image

Estava eu, jogando o clássico Shadow of the Colossus, sozinho, perto das três da manhã. Em busca do 11° colosso, acabei perdido numa planicie nublada (o que é comum neste jogo em particular), pausei para acionar o mapa do jogo, e para minha surpresa, não vi em nenhum ponto o  ícone com a minha localização. Achei aquilo estranho, mas continuei a explorar o terreno, mas como a visibilidade estava terrivelmente prejudicada, não vi o desfiladeiro a minha frente. No jogo, quando se está cavalgando, seu cavalo, Agro, sempre evita a queda, empinando e relinchando na direção oposta, mas desta vez ele caiu junto comigo. A queda pareceu durar quase 1 minuto, mas o que aconteceu depois foi uma das piores e mais bizarras experiências como gamer da minha vida…

Antes de continuar, quero afirmar aqui que como ateu que sou, sempre fui muito cético em relação a tudo. Já li em alguns destes sites (como o Creepy Pasta) diversos relatos claramente fantasiosos de bugs e hacks “satânicos” em jogos, que só fazem incutir medo e preconceito nas pessoas mais “facilmente sugestionaveis” por assim dizer, mas o que relatarei a seguir me fez rever alguns conceitos espirituais que até a noite de ontem costumava ignorar (e muitas vezes até zombar).  Enfim, leiam e tirem suas próprias conclusões…

A longa queda culminou num CG violentíssimo: O cavalo, Agro explodiu no impacto com o solo num grotresco espetcaulo de sangue e visceras hiper-realísticas, ao mesmo tempo que o protagonista teve as duas pernas esmigalhadas na queda. Até então, não tinha visto tal nivel de realismo no jogo, o que me deixou desarmado para o que viria  a seguir…

Apesar da queda, o protagonista continuava vivo, agonizante e paraplegico no chão, mas ainda assim vivo. Tentei controla-lo, mas o personagem não respondia aos meus comandos. Na mesma hora, confesso que acendi a luz no meu quarto, um tanto cabreiro com o que estava acontecendo. Como vi que o jogo não seguia, assumi que era um bug e  levantei da cama pra desligar (e assistir um pouco de Cartoon Network pra relaxar), mas quando botei o pé no chão, escuto no jogo as vozes dos Ancients (que ao longo do jogo dão dicas valiosas para destruir os colossos), dizendo:

“No hope for your faithless soul”

Gelei na hora. O controle dual shock começou a vibrar na minha mão e eu percebi que poderia rastejar com o personagem. Fui movimentando aquele avatar morimbundo que deixava um largo rastro de sangue por onde passava, até que um novo CG começou a rodar revelando um colosso que eu nunca tinha visto no jogo…

Lembrava Baphomet, pra muitos a encarnação do próprio capeta  (mas que na real era o simbolo da Ordem dos Templários,que foi demonizado pela Igreja para se livrar dos caras depois que eles fizeram o trabalho sujo por ela – mas isso é assunto pra um outro post). Enfim…saber disso não aliviou o cagaço que estava sentindo naquele momento. A musica de batalha começou e meu personagem estava caído aos pés de bode daquele gigante. O botão de espada não funcionava, não podia correr, nem chamar meu cavalo (que tinha virado uma nojenta poça de sangue), só me arrastar para a morte. As vozes dos Ancients voltaram pra me assombrar praguejando:

“You’ll die for your sins”

Enquanto isso, o estranho colosso me pegou do chão com sua mão gigantesca  e me levou para perto de seu rosto, pensei que era o momento de ataca-lo de alguma forma, mas o meu personagem começou a se contorcer e gritar como numa convulsão. A tela piscou uma vez e o cenário ficou num tom sólido de vermelho. Ao meu personagem morimbundo só restou a morte quando o colosso fechou sua mão, revelando na tela de Game Over a máscara macabra daquele monstro,abaixo, só havia a opção Quit, o jogo não me deu uma segunda chance…

Atormentado com aquele game, fui tentar dormir…só tentar…

.

.

.

Conto dedicado ao meu velho amigo Danilo, por me apresentar ao Creep Pasta, o melhor do terror para  nerds.

Eu me segurei o quanto pude. Juro que tentei , mas foi ELA quem quis assim. Agora Rebeca está morta, vísceras expostas sobre a cama em forma de coração. Eu, atordoado e banhado em sangue, a olho mais uma vez, iluminada pela fraca luz negra desse quarto de motel… Ela era perfeita… mas perfeita demais pra mim. Esta noite, eu acabei com três vidas: a minha, a dela e a de nosso filho, ou melhor: projeto de filho. Foi fácil me desfazer do corpo ainda incompleto de Junior (ou Juliet), pena não poder dizer o mesmo de sua mãe… Ainda custo a acreditar que a vadia arrancou minha orelha enquanto à livrava do peso de uma vida. Não era pra matá-la, não mesmo. Mas a dor cegou minha razão. Havia um Monstro dentro de mim, e ela o deixou escapar.

Agora são quase três da manhã… Meu ouvido não pára de sangrar e um zumbido agonizante parece querer explodir minha cabeça. Decido descansar meu corpo. Vou até a suíte, me lavar do vermelho daquela que pensei um dia ser o amor de minha vida. A água antes cristalina se torna escura. A calmaria do momento dá espaço para a vinda de uma violenta crise de consciência. O Monstro é acorrentado novamente, mas o Homem está morto. O zumbido aumenta junto com a dor.

Insuportavel…

Eu não chorava de verdade há anos, mas agora choro. Choro como nunca havia chorado na vida. Tão alto e tão forte que mal ouço o baque surdo vindo do quarto. Inconsolável, eu olho para a porta aberta e vejo com terror Rebeca rastejando em minha direção. Ela deixa um largo rastro de sangue até chegar aos pés da banheira. Ela amaldiçoa meu nome com as forças que ainda lhe restam. Eu tentaria uma reação se os músculos respondessem aos meus comandos. É como num sonho, onde não se consegue gritar e seu corpo trava diante do perigo.

Infelizmente, não estou sonhando…

Eu paro de resistir e me entrego à punição de Rebeca. Afinal, minha vida acabou no momento em que a matei (ou ao menos tentei). Ela pega o esbranquiçado cordão fibroso que antes alimentava nosso filho, ainda quente e pulsante, e o enrola em meu pescoço. Demora até que a falta de ar me liberte da carne.

A dor se vai…

Mas o zumbido continua… mais alto do que nunca…

*conto publicado originalmente em 5 setembro de 2008 no meu antigo blog Se Você é Jovem Ainda.

ULTIMATUM

Publicado: 31/08/2010 em contos
Tags:

No inicio pensei que fossem apenas animais, livres da corrupção, da ganância, da luxúria e do inexplicável prazer em destruir. Se soubesse naqueles tempos de inocência tudo que fariam ao meu corpo, não permitiria que chegassem até hoje.

Estou decidida e nada que digam, prometam ou sacrifiquem irão mudar seus destinos. Amigos e inimigos, entes queridos e desconhecidos, ao fim do dia a humanidade morrerá. Por cada tronco derrubado, por todo fogo espalhado e pelo sangue espirrado, todos pagarão pelos erros de muitos. Continuarão porem suas existências em mim, livres das emoções vis que os escravizaram e razão pela qual adoeci. Finalmente compreenderão o que venho tentando ensiná-los há milhares de anos: somos todos um.

Portanto não me odeiem pelo que farei, acreditem ou não, eu os amei e os suportei o quanto pude. Não se trata de vingança da minha parte, apenas equilíbrio. Aproveitem a ultima noite de suas vidas para amar, amanhã tudo estará bem.


O zumbido

Publicado: 05/09/2008 em contos

Eu me segurei o quanto pude. Juro que tentei , mas foi ELA quem quis assim. Agora Rebeca está morta, vísceras expostas sobre a cama em forma de coração. Eu, atordoado e banhado em sangue, a olho mais uma vez, iluminada pela fraca luz negra desse quarto de motel… Ela era perfeita… mas perfeita demais pra mim. Esta noite, eu acabei com três vidas: a minha, a dela e a de nosso filho, ou melhor: projeto de filho. Foi fácil me desfazer do corpo ainda incompleto de Junior (ou Juliet), pena não poder dizer o mesmo de sua mãe… Ainda custo a acreditar que a vadia arrancou minha orelha enquanto à livrava do peso de uma vida. Não era pra matá-la, não mesmo. Mas a dor cegou minha razão. Havia um Monstro dentro de mim, e ela o deixou escapar.

Agora são quase três da manhã… Meu ouvido não pára de sangrar e um zumbido agonizante parece querer explodir minha cabeça. Decido descansar meu corpo. Vou até a suíte, me lavar do vermelho daquela que pensei um dia ser o amor de minha vida. A água antes cristalina se torna escura. A calmaria do momento dá espaço para a vinda de uma violenta crise de consciência. O Monstro é acorrentado novamente, mas o Homem está morto. O zumbido aumenta junto com a dor.

Insuportavel…

Eu não chorava de verdade há anos, mas agora choro. Choro como nunca havia chorado na vida. Tão alto e tão forte que mal ouço o baque surdo vindo do quarto. Inconsolável, eu olho para a porta aberta e vejo com terror Rebeca rastejando em minha direção. Ela deixa um largo rastro de sangue até chegar aos pés da banheira. Ela amaldiçoa meu nome com as forças que ainda lhe restam. Eu tentaria uma reação se os músculos respondessem aos meus comandos. É como num sonho, onde não se consegue gritar e seu corpo trava diante do perigo.
_

Infelizmente, não estou sonhando…

Eu paro de resistir e me entrego à punição de Rebeca. Afinal, minha vida acabou no momento em que a matei (ou ao menos tentei). Ela pega o esbranquiçado cordão fibroso que antes alimentava nosso filho, ainda quente e pulsante, e o enrola em meu pescoço. Demora até que a falta de ar me liberte da carne.

A dor se vai…

Mas o zumbido continua… mais alto do que nunca…

Um conto de Samura

O tempo é fluído por aqui – disse o demônio.
Ele soube que era um demônio no momento em que o viu. Assim como soube que ali era o inferno. não havia nada mais que um ou outro pudesssem ser.
A sala era comprida, e do outro lado o demônio o esperava ao lado de um braseiro fumegante. uma grande variedade de objetos pendia das paredes cinzentas, cor de pedra, do tipo que não parecia sensato ou reconfortanteinspecionar muito de perto. O pé-direito era baixo, e o chão, estranhamente diáfano.
– Chegue mais perto – ordenou o demônio, e ele se aproximou.
O demônio era esquelético e estava nu. Tinha cicatrizes profundas, que pareciam ser fruto de um açoite ocorrido num passado distante. Não tinha orelhas nem sexo. Os lábios eram finos e ascéticos, e os olhos eram condizentes com os de um demônio: haviam ido longe demias e visto mais do que deveriam. sob aquele olhar, ele se sentia menos importante do que uma mosca.
– O que acontece agora? – ele perguntou.
– Agora – disse o demônio com uma voz que não demonstrava sofrimento nem deleite, somente uma horripilante neutra resignação – você será torturado.
– Por quanto tempo?
O demônio balançou a cabeça e não respondeu. Ele percorreu lentamente a parede, examinando um a um os instrumentos ali pendurados. na outra extremidade, perto da porta fechada, havia um açoite feito de arame farpado. O demônio o panhou com uma de suas mãos de três dedos e o carregou com reverência até o outro lado da sala. pôs as pontas de arame sobre o braseiro e observou enquanto se aqueciam.

_

– Isso é desumano.
– Sim
As pontas do açoite ganharam um brilho alaranjado.
Quando ergueu o braço para dar o primeiro golpe o demônio disse:
– No futuro, você vai sentir saudade deste momento.
– Você é um mentiroso.
– Não – respondeu o dêmônio. – A próxima parte é ainda pior – explicou pouco antes de descer o açoite.
As pontas do açoite atingiram nas costas do homem com um estalo e um chiado, rasgando as roupas caras. Elas queimavam , cortavam e estralhaçavam tudo o que tocavam. Não pela última vez, naquele lugar, ele gritou .
Havia duzentos e onze instrumentos nas paredes da sala,e com o tempo, ele iria experimentar cada um deles.
Por fim, a Filha do Lazareno, que ele acabou conhecendo intimamente, foi limpa e recolocada na parede na duocentéssima décima primeira posição. Nesse momento, por entre os lábios rachados, ele soluçou:
-E agora?
-Agora começa a dor de verdade – informou o demônio.
E começou mesmo.
Cada coisa que ele fizera que teria melhor não ter feito. Cada mentira que ele contara – a si mesmo e aos outros. Cada pequena mágoa, e todas as grandes mágoas. cada uma dessas coisas foi arrancada dele, detalhe por detalhe, centímentro por centímentro. O demônio descascava a crosta do esquecimento, tirava tudo até sobrar somente a verdade,e isso doía mais do que qualquer outra coisa.
– Conte o que voc~e pensou quando a viu indo embora – exigiu o demônio.
– Pensei que meu coração ia se partir.
– Não, não pensou – contestou o demônio, sem ódio. Dirigiu seu olhar sem expressão para o homem, que se viu forçado a desviar os olhos.
– Pensei: agora ela vai ficar sabendo que dormi com a irmã dela.
O demônio descontruiu a vida do homem, momento por momento, um instante medonho após o outro. isso levou cem anos, talves mil – eles tinham todo o tempo do universonaquela sala cinzenta. Lá pelo final, ele percebeu que o demônio tinha razão. Aquilo era pior do que a tortura física.
Mas acabou.
só que quando acabou, começou denovo. e com uma consciência de si mesmo que elel não tinha da primeira vez, que de certa forma, tornava tudo ainda pior.
Agora, enquanto falava, elele se odiava. não havia mentiras, nem evasivas, nem espaço pra nada que não fosse dor e ressentimento.
Ele falava, não chorava mais. e quando terminou, mil anos depois, rezou para que o demônio fosse até a parede e pegasse a faca de escalpelar, ou o sufocador, ou a morsa.
-De novo – Ordenou o demônio.
Ele começou a gritar. Gritou durante muito tempo.
– De novo – ordenou o demônio quando ele se calou, como se nada houvesse sido dito até então.
Era como descascar uma cebola. Dessa vez,a o repassar sua vida, ele aprendeu sobre as consequências. Percebeu os resultados das coisas que fizera; notou que estava cego quandpo tomou certas atitudes; tomou conhecimento das maneiras como infligia mágoas ao mundo; dos danos que causara a pessoas que jamais conhecera, encontrara ou vira. Foi a lição mais dificil até aquele momento.
– De novo – ordenou o demônio, mil anos depois.
ele agachou no chão, ao lado do braseiro, balançando o corpo de leve, com os olhos fechados,e contou a história da sua vida, revivendo-a enquanto contava, do nascimento até a morte, sem mudar nada, sem omitir nada, enfrentando tudo. Abriu seu coração.
Quando cabou, ficou sentado ali, de olhos fechados, esperando que a voz dissesse: “de novo”. Porém, nada foi dito. ele abriu os olhos.
Lentamente ficou de pé. Estava sozinho.
na outra ponta da sala havia uma porta, que enquanto ele olhava, se abriu.
Um homem entrou. Havia terror em seu rosto, e tambem arrogância e orgulho. O homem, que usava roupas caras, deu alguns passos hesitantes pela sala e parou.
Ao ver o homem, ele entendeu.
– O tempo é fluído por aqui – disse ao recem chegado.

Um conto de Neil Gaiman