Os Outros – um conto de Neil Gaiman

Publicado: 30/08/2008 em contos

O tempo é fluído por aqui – disse o demônio.
Ele soube que era um demônio no momento em que o viu. Assim como soube que ali era o inferno. não havia nada mais que um ou outro pudesssem ser.
A sala era comprida, e do outro lado o demônio o esperava ao lado de um braseiro fumegante. uma grande variedade de objetos pendia das paredes cinzentas, cor de pedra, do tipo que não parecia sensato ou reconfortanteinspecionar muito de perto. O pé-direito era baixo, e o chão, estranhamente diáfano.
– Chegue mais perto – ordenou o demônio, e ele se aproximou.
O demônio era esquelético e estava nu. Tinha cicatrizes profundas, que pareciam ser fruto de um açoite ocorrido num passado distante. Não tinha orelhas nem sexo. Os lábios eram finos e ascéticos, e os olhos eram condizentes com os de um demônio: haviam ido longe demias e visto mais do que deveriam. sob aquele olhar, ele se sentia menos importante do que uma mosca.
– O que acontece agora? – ele perguntou.
– Agora – disse o demônio com uma voz que não demonstrava sofrimento nem deleite, somente uma horripilante neutra resignação – você será torturado.
– Por quanto tempo?
O demônio balançou a cabeça e não respondeu. Ele percorreu lentamente a parede, examinando um a um os instrumentos ali pendurados. na outra extremidade, perto da porta fechada, havia um açoite feito de arame farpado. O demônio o panhou com uma de suas mãos de três dedos e o carregou com reverência até o outro lado da sala. pôs as pontas de arame sobre o braseiro e observou enquanto se aqueciam.

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– Isso é desumano.
– Sim
As pontas do açoite ganharam um brilho alaranjado.
Quando ergueu o braço para dar o primeiro golpe o demônio disse:
– No futuro, você vai sentir saudade deste momento.
– Você é um mentiroso.
– Não – respondeu o dêmônio. – A próxima parte é ainda pior – explicou pouco antes de descer o açoite.
As pontas do açoite atingiram nas costas do homem com um estalo e um chiado, rasgando as roupas caras. Elas queimavam , cortavam e estralhaçavam tudo o que tocavam. Não pela última vez, naquele lugar, ele gritou .
Havia duzentos e onze instrumentos nas paredes da sala,e com o tempo, ele iria experimentar cada um deles.
Por fim, a Filha do Lazareno, que ele acabou conhecendo intimamente, foi limpa e recolocada na parede na duocentéssima décima primeira posição. Nesse momento, por entre os lábios rachados, ele soluçou:
-E agora?
-Agora começa a dor de verdade – informou o demônio.
E começou mesmo.
Cada coisa que ele fizera que teria melhor não ter feito. Cada mentira que ele contara – a si mesmo e aos outros. Cada pequena mágoa, e todas as grandes mágoas. cada uma dessas coisas foi arrancada dele, detalhe por detalhe, centímentro por centímentro. O demônio descascava a crosta do esquecimento, tirava tudo até sobrar somente a verdade,e isso doía mais do que qualquer outra coisa.
– Conte o que voc~e pensou quando a viu indo embora – exigiu o demônio.
– Pensei que meu coração ia se partir.
– Não, não pensou – contestou o demônio, sem ódio. Dirigiu seu olhar sem expressão para o homem, que se viu forçado a desviar os olhos.
– Pensei: agora ela vai ficar sabendo que dormi com a irmã dela.
O demônio descontruiu a vida do homem, momento por momento, um instante medonho após o outro. isso levou cem anos, talves mil – eles tinham todo o tempo do universonaquela sala cinzenta. Lá pelo final, ele percebeu que o demônio tinha razão. Aquilo era pior do que a tortura física.
Mas acabou.
só que quando acabou, começou denovo. e com uma consciência de si mesmo que elel não tinha da primeira vez, que de certa forma, tornava tudo ainda pior.
Agora, enquanto falava, elele se odiava. não havia mentiras, nem evasivas, nem espaço pra nada que não fosse dor e ressentimento.
Ele falava, não chorava mais. e quando terminou, mil anos depois, rezou para que o demônio fosse até a parede e pegasse a faca de escalpelar, ou o sufocador, ou a morsa.
-De novo – Ordenou o demônio.
Ele começou a gritar. Gritou durante muito tempo.
– De novo – ordenou o demônio quando ele se calou, como se nada houvesse sido dito até então.
Era como descascar uma cebola. Dessa vez,a o repassar sua vida, ele aprendeu sobre as consequências. Percebeu os resultados das coisas que fizera; notou que estava cego quandpo tomou certas atitudes; tomou conhecimento das maneiras como infligia mágoas ao mundo; dos danos que causara a pessoas que jamais conhecera, encontrara ou vira. Foi a lição mais dificil até aquele momento.
– De novo – ordenou o demônio, mil anos depois.
ele agachou no chão, ao lado do braseiro, balançando o corpo de leve, com os olhos fechados,e contou a história da sua vida, revivendo-a enquanto contava, do nascimento até a morte, sem mudar nada, sem omitir nada, enfrentando tudo. Abriu seu coração.
Quando cabou, ficou sentado ali, de olhos fechados, esperando que a voz dissesse: “de novo”. Porém, nada foi dito. ele abriu os olhos.
Lentamente ficou de pé. Estava sozinho.
na outra ponta da sala havia uma porta, que enquanto ele olhava, se abriu.
Um homem entrou. Havia terror em seu rosto, e tambem arrogância e orgulho. O homem, que usava roupas caras, deu alguns passos hesitantes pela sala e parou.
Ao ver o homem, ele entendeu.
– O tempo é fluído por aqui – disse ao recem chegado.

Um conto de Neil Gaiman
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comentários
  1. Nadezhda disse:

    Gostei muito. Não só pelo conteúdo, mas por toda a descrição e como é contada!;)

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