Arquivo de agosto, 2008

O tempo é fluído por aqui – disse o demônio.
Ele soube que era um demônio no momento em que o viu. Assim como soube que ali era o inferno. não havia nada mais que um ou outro pudesssem ser.
A sala era comprida, e do outro lado o demônio o esperava ao lado de um braseiro fumegante. uma grande variedade de objetos pendia das paredes cinzentas, cor de pedra, do tipo que não parecia sensato ou reconfortanteinspecionar muito de perto. O pé-direito era baixo, e o chão, estranhamente diáfano.
– Chegue mais perto – ordenou o demônio, e ele se aproximou.
O demônio era esquelético e estava nu. Tinha cicatrizes profundas, que pareciam ser fruto de um açoite ocorrido num passado distante. Não tinha orelhas nem sexo. Os lábios eram finos e ascéticos, e os olhos eram condizentes com os de um demônio: haviam ido longe demias e visto mais do que deveriam. sob aquele olhar, ele se sentia menos importante do que uma mosca.
– O que acontece agora? – ele perguntou.
– Agora – disse o demônio com uma voz que não demonstrava sofrimento nem deleite, somente uma horripilante neutra resignação – você será torturado.
– Por quanto tempo?
O demônio balançou a cabeça e não respondeu. Ele percorreu lentamente a parede, examinando um a um os instrumentos ali pendurados. na outra extremidade, perto da porta fechada, havia um açoite feito de arame farpado. O demônio o panhou com uma de suas mãos de três dedos e o carregou com reverência até o outro lado da sala. pôs as pontas de arame sobre o braseiro e observou enquanto se aqueciam.

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– Isso é desumano.
– Sim
As pontas do açoite ganharam um brilho alaranjado.
Quando ergueu o braço para dar o primeiro golpe o demônio disse:
– No futuro, você vai sentir saudade deste momento.
– Você é um mentiroso.
– Não – respondeu o dêmônio. – A próxima parte é ainda pior – explicou pouco antes de descer o açoite.
As pontas do açoite atingiram nas costas do homem com um estalo e um chiado, rasgando as roupas caras. Elas queimavam , cortavam e estralhaçavam tudo o que tocavam. Não pela última vez, naquele lugar, ele gritou .
Havia duzentos e onze instrumentos nas paredes da sala,e com o tempo, ele iria experimentar cada um deles.
Por fim, a Filha do Lazareno, que ele acabou conhecendo intimamente, foi limpa e recolocada na parede na duocentéssima décima primeira posição. Nesse momento, por entre os lábios rachados, ele soluçou:
-E agora?
-Agora começa a dor de verdade – informou o demônio.
E começou mesmo.
Cada coisa que ele fizera que teria melhor não ter feito. Cada mentira que ele contara – a si mesmo e aos outros. Cada pequena mágoa, e todas as grandes mágoas. cada uma dessas coisas foi arrancada dele, detalhe por detalhe, centímentro por centímentro. O demônio descascava a crosta do esquecimento, tirava tudo até sobrar somente a verdade,e isso doía mais do que qualquer outra coisa.
– Conte o que voc~e pensou quando a viu indo embora – exigiu o demônio.
– Pensei que meu coração ia se partir.
– Não, não pensou – contestou o demônio, sem ódio. Dirigiu seu olhar sem expressão para o homem, que se viu forçado a desviar os olhos.
– Pensei: agora ela vai ficar sabendo que dormi com a irmã dela.
O demônio descontruiu a vida do homem, momento por momento, um instante medonho após o outro. isso levou cem anos, talves mil – eles tinham todo o tempo do universonaquela sala cinzenta. Lá pelo final, ele percebeu que o demônio tinha razão. Aquilo era pior do que a tortura física.
Mas acabou.
só que quando acabou, começou denovo. e com uma consciência de si mesmo que elel não tinha da primeira vez, que de certa forma, tornava tudo ainda pior.
Agora, enquanto falava, elele se odiava. não havia mentiras, nem evasivas, nem espaço pra nada que não fosse dor e ressentimento.
Ele falava, não chorava mais. e quando terminou, mil anos depois, rezou para que o demônio fosse até a parede e pegasse a faca de escalpelar, ou o sufocador, ou a morsa.
-De novo – Ordenou o demônio.
Ele começou a gritar. Gritou durante muito tempo.
– De novo – ordenou o demônio quando ele se calou, como se nada houvesse sido dito até então.
Era como descascar uma cebola. Dessa vez,a o repassar sua vida, ele aprendeu sobre as consequências. Percebeu os resultados das coisas que fizera; notou que estava cego quandpo tomou certas atitudes; tomou conhecimento das maneiras como infligia mágoas ao mundo; dos danos que causara a pessoas que jamais conhecera, encontrara ou vira. Foi a lição mais dificil até aquele momento.
– De novo – ordenou o demônio, mil anos depois.
ele agachou no chão, ao lado do braseiro, balançando o corpo de leve, com os olhos fechados,e contou a história da sua vida, revivendo-a enquanto contava, do nascimento até a morte, sem mudar nada, sem omitir nada, enfrentando tudo. Abriu seu coração.
Quando cabou, ficou sentado ali, de olhos fechados, esperando que a voz dissesse: “de novo”. Porém, nada foi dito. ele abriu os olhos.
Lentamente ficou de pé. Estava sozinho.
na outra ponta da sala havia uma porta, que enquanto ele olhava, se abriu.
Um homem entrou. Havia terror em seu rosto, e tambem arrogância e orgulho. O homem, que usava roupas caras, deu alguns passos hesitantes pela sala e parou.
Ao ver o homem, ele entendeu.
– O tempo é fluído por aqui – disse ao recem chegado.

Um conto de Neil Gaiman

Só o sangue é eterno

Publicado: 28/08/2008 em cinema, dinheiro

Não durou nem duas semanas para que eu pedisse pela primeira vez em minha vida uma demissão. Sim, caro amigo, mas não pense você que foi um simples impulso de um cara folgado (embora estivesse exausto daquele ritmo de trabalho frenético), não. Aconteceu que dias antes de ser chamado pela Real, eu havia marcado uma entrevista pra uma certa multi-nacional só no final do mês, e sabe como é: salário maior, trabalho menor… escolhi o óbvio. Não demorou para que eu jogasse a toalha daquele serviço escravo dos infernos.

Falando em Inferno, vi o novo longa do seu Mojica, Encarnação do Demônio, numa sessão praticamente particular (duas pessoas na sala!). O filme se passa após o fim do cárcere de 40 anos do famoso psicopata Zé do Caixão. De volta as ruas, o cético e obstinado Undertaker brasileiro, segue firme em sua busca pela mulher que lhe dará o filho perfeito, a continuidade de seu sangue. E ele não está sozinho: com o auxilio de Bruno, seu fiel mordomo e uma trupe de punks assistentes, ele caça e testa cada uma de suas pretendentes, enquanto é assombrado por fantasmas do passado e perseguido de perto pela PM e um padre motherfucker.

Apesar do baixo orçamento, Encarnação do Demônio é diferente dos costumeiros filmes de terror que vemos por aí: os dialogos são animais, a violência é explicita, e a fotografia sombria é linda, ficando apenas devendo um pouco na atuação escrota de alguns coadjuvantes… Mas, não chega a ser um empecilho frente a toda genialidade do mais famoso cineasta brasileiro, José Mojica Marins, o nosso eterno Zé do Caixão!
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Mais Batman!

Publicado: 24/08/2008 em HQs

Pois é… não deu pra aquele post de quarta denovo. Mas cá estou eu, surpreendentemente ainda com os dez dedos nas mãos para um breve e passional ensaio sobre um dos maiores clássicos da história dos comics: estou falando de Batman: O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller que foi a mais nova aquisição do meu arcevo nerd, bwawawwawawawa!!!!!
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Assim como provavelmente metade do mundo, sempre gostei do Homem-Morcego, mas confesso que foram os filmes do Nolan (e tambem pelos nerdcasts ) que me fizeram mergulhar de cabeça nos becos e vielas mais perigosas de Gothan City. Comecei tímido, primeiramente baixando o famigerado Piada Mortal, de Alan Moore, que conta um pouco das origens do mais insano vilão dos quadrinhos (quisá, agora do cinema): Coringa! Depois, nos sebos da vida, saí com a edição de Batman Extra #15, que veio com a mini-série Contágio Letal: aventura na qual, Wayne estrela ao lado de Lobo, um dos personagens mais motherfuckers do Universo DC. O traço e roteiro de Sam Kieth são de cair o queixo, só estranhei o fato do Lobo ter excesso de estrogênio no seu corpo (logo ele?). Uma semana mais tarde, estava lendo Asilo Arkhan: Os Subterrâneos da Loucura, de Grant Alcatena, aventura ambientada numa Realidade Alternativa, onde o agora Dr. Wayne é dono do hospício mais perigoso do mundo, numa Gothan no ínicio do século XIX (!).
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Depois disso, parti pra ignorância e tratei logo de arrumar aclamada série de Miller, e já posso falar com alguma autoridade: o cara é f#da! Nessa fantástica série (lançada originalmente em 85), após uma aposentadoria de vinte anos, o velho Bruce se vê forçado a retomar suas atividades quando o calor em Gothan sobe tanto quanto a taxa de criminalidade, esta ultima provocada por uma gangue de jovens anarquistas denominada Mutantes (mas que de mutante mesmo, só tem o líder). Claro que ele já não é o meninão de antigamente, e por isso não pode se dar ao luxo de morrer por aí pra meia dúzia de moleques ramelentos, então ele retorna muito mais violento, ao melhor estilo Sin City de ser, mas ainda preservando seu voto de não matar (mas aleijar, cegar e mutilar tá valendo!). O Batmovel virou um p#ta tanque de guerra (como se pode ver nos filmes de Nolan), e Robin agora é uma garota! A volta de Batman na praça devolve a vida e o sorriso ao rosto de Coringa, seu arqui-rival que passou os vinte anos mais sem graça de sua vida, sem o Morcego pra chatear. Sua última batalha com o palhaço tem um desfecho macabro, digno de Frank Miller. Mas o melhor ainda estava por vir: Um confronto épico de Clark (agora, um cãozinho dos EUA) contra Wayne, com uma brilhante participação do Arqueiro Verde (com um só braço!). Final perfeitaço, de chorar de tão bom!

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Mudando de assunto, amanhã tô com uma entrevista marcada pra trabalhar na Flextronics, uma empresa de eletrônicos, e que contratou metade do meu bairro aqui (sério!). Vou tentar… tô me machucando demais lá na Real, ralação demais, sem falar que na Flex o salário é quase o dobro do que na Padaria. Vamos ver o que se sucede… acompanhem os novos episódios. Agora aproveitar o restinho do dia pra ler os blogs do pessoal e quem sabe ir ao cinema a noite.
Abraços, me add!
😀
PSone: Me rendi ao BuddyPoked! Deem uma olhada no meu avatarzinho no quadro ao lado, até que ficou parecido…
PS2: Tá bom… prometo que é o último post sobre Batman (pelo menos nesse mês :P)

No pains no gains

Publicado: 17/08/2008 em dinheiro, vida

Quebradaço, mas ainda vivo… trabalhar na produção da Real pode ser tudo, menos leve. Apanhei que nem cachorro véio nos primeiros dois dias, me cortei, me queimei, enfim… só ontem que comecei a pegar algumas manhas do(s) servicinho(s). Os caras que trabalham lá foram bem legais comigo, brincalhões e tal. O f#da é ter que ficar em pé por oito horas, lavando formas, varrendo chão, enquanto frito salgados e asso tortas, montando caixas e as levando pra cima e baixo sem parar. Trabalhoso (deve ser por isso que chamam de trabalho…). E tem esse horário filadamãe que não me deixa tempo pra fazer nada (entenda por nada: PC, RPG, HQ e TV [caramba, só siglas !?]). Será que todo trabalho é desse jeito?!


Reclamações a parte, alguns updates randômicos:

  • Bem… foi ontem aquele eclipse que a Yahoo estava “promovendo”, né? Nem vi … alguem sabe se aconteceu alguma coisa bizarra?
  • Fiquei sabendo tambem que o acionamento do LHC foi adiado pra 10 de setembro. Entendo, destruír (ou não) o mundo não é uma decisão fácil 😀 . Aproveitem a vida até lá…
  • Já estreiou The Clone Wars, mas tambem queria ver Encarnação do Demônio

Acho que é isso por hoje… espero poder postar algo durante a semana, tenho que me ajustar a esse novo tempo. Que a Força esteja comigo!

Raindrops keep falling on my head

Publicado: 09/08/2008 em HQs, livros, vida
Ritmo…em ritmo de festa, começo o post anunciando que a partir de ontem sou um homem (finalmente) empregado !

Sim, é verdade! Depois de espalhar currículos nos mais recônditos cantos de Sorohell, enfim foi me dada uma chance e eu não vou desperdiça-la! Fui contratado pra trabalhar (vejam só) como auxiliar de produção no setor de confeitos e salgados da matriz da toda-poderosa Padaria Real , simplesmente o local onde é produzida a melhor coxinha com catupiry do mundooooooo*. Pra que a alienação de uma linha de montagem quando eu posso destrinchar os segredos da famigerada culinária da Real? 😀
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*Eleita pela Reader Digest como uma das “100 maiores delícias do Brasil”, toma essa!

Tô até vendo os depoimentos emocionados dos padeiros que trabalharão comigo quando o Faustão anunciar o MEU…. Arquivo Confidêncial (cara de surpresa)!!!

Delírios a parte, começaram as Olimpíadas de Pequim (eu fico desgraçado da minha cabeça quando falam Běijīng na TV), mas eu não tô nem aí. Ponto.

Lançado pela HQM, Passeando com o Rei dos Sonhos: Conversas com Neil Gaiman e seus Colaboradores , uma compilação de entrevistas realizadas pelo jornalista Jopseph McCabe com o mega-boga criador do fantástico Sandman, um divisor de águas na história dos quadrinhos. Com mais de 300 páginas, com muitas fotos e desenhos inéditos, o livro é uma oportunidade única de observar como Gaiman pensa, cria, trabalha e interage com outros artistas, alem de conhecer seu ínicio como jornalista e seus primeiros passos nos quadrinhos. Tô doido pra ler (pra variar)!!!

___________________________ O cara

Aviso aos Trouxas

Publicado: 06/08/2008 em livros

Sete livros (com mais de 500 páginas cada) não foram o bastante para os fãs do sobrinho favorito dos Dursleys: Após acompanhar anos a fio as desventuras de HP, é impossivel não sentir um vazio f#da no final de Reliquias da Morte… não que eu não tenha gostado do desfecho da série (adorei, embora esperasse ainda MAIS mortes, bwawawwa :D), mas o fim de uma boa e looonga série de livros, TV, anime, whatever é sempre como se um grande e velho amigo fosse embora pra Far Far Away (modo Emo: On)…


Porem, Rowling apresentou uma surpresa aos trouxas de plantão: não, não estou falando do oitavo volume de HP, e sim do lançamento de The Tales of Beedle The Bard ! Lembram daquele livro de histórias herdado a Hermione por Dumbledore, aquele com o Conto dos Três Irmãos (vocês já leram o último livro, né?) ?

Pois bem… mais um livro ficticio na série se torna real para alegria de milhares de almas. Não bastasse a oportunidade de conhecer as maiores fábulas do mundo bruxo, a edição trará algumas outras surpresas. Com a palavra, JK:

“A nova edição incluirá os contos em si, traduzidos das runas originais por Hermione Granger e com ilustrações feitas por mim mas também terá notas do Professor Dumbledore que aparecem pela generosa permissão dos diretores do Arquivo de Hogwarts. O comentário de Dumbledore sobre os contos, os quais foram descobertos em seus documentos após sua morte, incluem algumas notas históricas, reflexões pessoais e os aspectos de um dos ramos mais misteriosos da magia: o folclore mágico. Espero que os leitores que poderão ter essas fábulas mágicas clássicas pela primeira vez, encontrem em seus comentários tanto um entretenimento como uma utilidade.(…) Dumbledore não apenas revela seu vasto conhecimento da tradição mágica, mas também mais sobre suas qualidades pessoais: seu senso de humor, sua coragem, o orgulho de suas habilidades e a sua sabedoria conquistada com muito esforço. Nomes conhecidos dos livros de Harry Potter espalham-se nas páginas, incluindo Aberforth Dumbledore, Lúcio Malfoy e os seus antepassados e o cavalheiro Nicholas de Mimsy-Porpington (ou “Nick Quase Sem Cabeça”), como também de outros professores de Hogwarts e antigos donos da Varinha das Varinhas. Dumbledore nos conta de incidentes únicos no mundo bruxo, como produções teatrais hilariamente problemáticas em Hogwarts ou os perigos de ter “um coração peludo.” Mas ele também revela aspectos do mundo bruxo que os seus leitores trouxas poderiam achar muito familiares, como censura, intolerância, e questões sobre os mistérios mais profundos da vida.”

O livro tem lançamento mundial e limitado no final do ano, dia 4 de dezembro, e já está em processo de pré-venda no Brasil pela Livraria Cultura por R$ 26,07 (em inglês).

Bat-anime

Publicado: 03/08/2008 em animes, HQs

Para aqueles que assim como eu, saíram de The Dark Knight sedentos por mais, deixo a dica: foi lançado há pouco mais de duas semanas o DVD Batman: O Cavaleiro de Gotham, uma compilação de seis curtas animados pelos grandes estúdios japoneses.
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As histórias são idependentes entre si, e se passam entre o Begins e o TDK, apresentando novos vilões, como o monstruoso Crocodilo e o apelo do Deadshot. Ao contrário do que foi feito em Animatrix, os animes não tem a intenção de costurar “pontas-soltas”, e sim apresentar o Homem-Morcego na visão nipônica. E com visão, quero dizer só o estilo, já que os roteiros e tramas são obra americana, pra garantir que os episódios não fujam (muito) do universo concebido pelo super Nolan.


Todos os animes ficaram muito bons na minha opinião de otaku, mas meu preferido foi “Working Through Pain” do Studio 4C, que conta na forma de flashbacks sobre como Wayne aprendeu a lidar com sua dor (ou não :P) com uma ex-faquir.
Embora não sejam essenciais, são mais do que obrigatórios para novos e velhos fãs do Cavaleiro Negro!